A importância da saúde mental dos responsáveis no desenvolvimento infantil
Cuidar de uma criança com desenvolvimento atípico envolve descobertas, aprendizados e adaptações constantes. Para muitas famílias, a rotina inclui atendimentos terapêuticos, consultas médicas, acompanhamento escolar e diversas responsabilidades que exigem tempo, dedicação e envolvimento emocional.
Mas, em meio a tantas demandas, uma pergunta merece atenção: quem está cuidando da saúde mental de quem cuida?
O bem-estar emocional dos pais e responsáveis é uma parte importante dessa jornada e também merece acolhimento, atenção e cuidado.
A saúde mental dos cuidadores merece atenção
Pesquisas científicas demonstram que pais e responsáveis por crianças com transtornos do neurodesenvolvimento podem apresentar maior vulnerabilidade a sintomas de estresse, ansiedade e depressão.
Uma revisão sistemática realizada por Lam e colaboradores (2025), envolvendo 13.853 cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), identificou que aproximadamente 45% apresentavam sintomas depressivos.
No Brasil, Souza e colaboradores (2026) identificaram que, entre 117 mães de crianças com desenvolvimento atípico, 70,1% não realizavam atividades de lazer e 50,4% dedicavam, no máximo, uma hora diária ao autocuidado.
Esses dados revelam uma realidade que merece atenção: muitas mães, pais e responsáveis acabam deixando suas próprias necessidades em segundo plano, seja pela sobrecarga de responsabilidades, pelas dificuldades financeiras ou pela ausência de uma rede de apoio.
Como a saúde mental dos responsáveis influencia o desenvolvimento infantil?
A saúde mental dos pais e cuidadores não impacta apenas o próprio bem-estar. Ela também pode influenciar a qualidade das interações familiares e o ambiente em que a criança se desenvolve.
Quando os responsáveis enfrentam níveis elevados de estresse, ansiedade ou esgotamento emocional, podem surgir dificuldades para lidar com situações desafiadoras, menor disponibilidade emocional e menos oportunidades de interação e convivência.
A sobrecarga também pode dificultar a manutenção de rotinas, a participação em brincadeiras e a criação de experiências de aprendizagem no cotidiano.
Isso não significa responsabilizar os cuidadores pelas dificuldades dos filhos, mas reconhecer que o bem-estar emocional de quem cuida também contribui para um ambiente mais acolhedor e favorável ao desenvolvimento infantil.
Como cuidar da saúde mental dos responsáveis?
Pequenas atitudes podem contribuir para reduzir a sobrecarga emocional e fortalecer o bem-estar dos cuidadores:
- Atividade física: movimentar o corpo regularmente pode ajudar a reduzir sintomas de estresse, ansiedade e depressão.
- Psicoterapia: o acompanhamento psicológico oferece um espaço de escuta, acolhimento e desenvolvimento de estratégias para enfrentar os desafios cotidianos.
- Autocuidado: reservar momentos para descansar, cuidar da alimentação, do sono e da própria saúde.
- Lazer: dedicar tempo a atividades prazerosas, hobbies e momentos de descontração.
- Rede de apoio: compartilhar responsabilidades com familiares, amigos e pessoas de confiança, evitando que todo o cuidado fique concentrado em uma única pessoa.
É importante lembrar que nem todas as famílias possuem as mesmas condições para colocar essas estratégias em prática. Por isso, o acolhimento e o suporte de profissionais, instituições e redes de apoio são fundamentais.
No Protea, cuidar também significa acolher as famílias
No Protea Neurodesenvolvimento, acreditamos que cuidar do desenvolvimento infantil também significa olhar para o bem-estar das famílias.
Pensando nisso, desenvolvemos o projeto Cuidar de Quem Cuida!, uma iniciativa que promove rodas de conversa, palestras e momentos de autocuidado destinados aos familiares e responsáveis pelas crianças atendidas.
Por meio dessas ações, buscamos proporcionar espaços de acolhimento, escuta, troca de experiências e fortalecimento emocional, reconhecendo que mães, pais e responsáveis também possuem necessidades que merecem atenção.
Afinal, a jornada do desenvolvimento infantil envolve toda a família. E oferecer apoio a quem cuida também é uma maneira de fortalecer essa caminhada.
Cuidar de si não é egoísmo. É reconhecer que quem dedica tanto amor e atenção ao outro também merece cuidado.
Protea Neurodesenvolvimento — Cuidar de quem cuida também faz parte da nossa missão!
Referências científicas
LAM, X. R. et al. (2025). Global prevalence of depression in caregivers of children with autism: A systematic review and meta-analysis. Journal of Pediatric Nursing, 80, e74–e85. https://doi.org/10.1016/j.pedn.2024.11.020
SOUZA, E. S. et al. (2026). Determinantes da qualidade de vida, saúde mental e ideação suicida em mães de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento: estudo transversal analítico em Feira de Santana, Bahia. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, 26. https://doi.org/10.1590/1806-9304202600000197
LI, S. N. et al. (2024). Effectiveness of parent-focused interventions for improving the mental health of parents and their children with autism spectrum disorder: A systematic review and meta-analysis. Research in Autism Spectrum Disorders, 114, 102389. https://doi.org/10.1016/j.rasd.2024.102389
PIRO-GAMBETTI, B. et al. (2025). Longitudinal pathways between parent depression and child mental health in families of autistic children. Development and Psychopathology, 37(4), 1769–1781. https://doi.org/10.1017/S0954579424001378
Autoria
Anne Silva Rodrigues Daltro
Supervisora Clínica – Protea Vitória
Psicóloga – CRP 16/6714
Mestre em Psicologia (UFES)
Doutoranda em Psicologia (UFES)


