Meu filho faz birra em todo lugar. O que está por trás desse comportamento?
Por isso, na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), não olhamos apenas para a birra em si, mas principalmente para a função desse comportamento, ou seja, para o motivo pelo qual ele acontece e se mantém.
Entender esse “porquê” é muito mais eficaz do que tentar apenas interromper o comportamento.
Um dos principais objetivos da intervenção é ensinar formas mais adequadas e eficientes dessa comunicação.
Isso não significa atender a todos os pedidos da criança. Significa oferecer a ela estratégias para expressar suas necessidades de maneira assertiva, sem precisar recorrer à birra para ser compreendida.
Essa mudança de perspectiva também ajuda os adultos. Em vez de pensar apenas “como faço a birra parar?”, passamos a perguntar: “O que meu filho está tentando comunicar com esse comportamento?”
Essa pergunta costuma levar a respostas mais calmas, consistentes e educativas.
Como o comportamento pode ser reforçado?
É importante lembrar que, quando cedemos à birra apenas porque estamos cansados ou queremos que ela termine rapidamente, podemos, sem perceber, reforçar esse comportamento.
Chamamos isso de reforçamento: quando uma consequência aumenta a probabilidade de um comportamento voltar a acontecer.
Se a criança aprende que, chorando intensamente, consegue aquilo que deseja ou escapa de uma situação desagradável, é provável que utilize dessa estratégia novamente em situações semelhantes.
Uma mesma birra pode ter funções diferentes
Uma mesma birra pode ter funções (motivos) completamente diferentes.
Imagine, por exemplo, uma criança que chora porque não quer tomar banho. Nesse caso, o comportamento pode estar funcionando para evitar uma atividade considerada difícil ou aversiva.
Já outra criança pode chorar porque deseja assistir a um desenho, buscando acesso a um item ou atividade de preferência.
Em outra situação, a criança pode chorar porque os pais estão ocupados e ela deseja atenção.
Embora o comportamento seja parecido, a forma de intervir será diferente em cada caso.
Como agir de acordo com a função da birra?
Se a função da birra for evitar o banho, podemos tornar essa atividade mais previsível e agradável, utilizando recursos visuais, avisos antecipados, escolhas (“Você quer usar a esponja azul ou a verde?”) e reforçando a participação da criança durante a rotina.
Se a função for conseguir assistir ao desenho, podemos estabelecer combinados antes que a birra aconteça.
Por exemplo: “Depois do banho você poderá assistir ao desenho” ou “Hoje vamos assistir depois do jantar”.
Quando não for possível atender ao pedido naquele momento, é importante comunicar isso de forma clara e consistente, oferecendo alternativas quando apropriado e, principalmente, mantendo o combinado.
Quando a função for obter atenção, vale refletir sobre quando a criança costuma receber mais interação dos adultos.
Algumas crianças recebem muita atenção apenas quando já estão chorando ou gritando.
Por isso, é fundamental aumentar a atenção oferecida quando a criança estiver brincando, esperando, tentando se comunicar adequadamente ou apresentando outros comportamentos desejáveis.
Dessa forma, ela aprende que não precisa fazer birra para ser vista e ouvida.
O objetivo não é simplesmente “acabar com a birra”
Em todos esses exemplos, o foco não é simplesmente “acabar com a birra”, mas ensinar habilidades mais eficientes de comunicação e reduzir a necessidade desse comportamento ao longo do tempo.
Por fim, é importante compreender que mudanças comportamentais são graduais.
Não existe uma estratégia que funcione de forma imediata para todas as crianças.
O que produz resultados consistentes é a combinação entre uma boa análise da função do comportamento, intervenções individualizadas e, principalmente, a consistência dos adultos em aplicar essas estratégias no dia a dia.
Com paciência, planejamento e orientação adequada, a criança aprende novas formas de se comunicar e a necessidade da birra tende a diminuir naturalmente.


