Você já percebeu que muitas crianças apresentam birras frequentes, irritação, choro intenso ou dificuldade para seguir combinados?
O que muitas famílias ainda não sabem é que, em grande parte dos casos, esses comportamentos estão diretamente relacionados à forma como a criança consegue se comunicar.
A comunicação vai muito além da fala. Ela envolve compreender o que é dito, expressar desejos, necessidades e sentimentos, além de conseguir interagir com o outro de forma funcional. Quando essas habilidades não estão bem desenvolvidas, o comportamento passa a ser a principal forma de expressão da criança.
Comunicação e comportamento: qual é a relação?
Toda criança precisa se comunicar. Quando ela não consegue pedir, recusar, explicar, relatar ou expressar emoções, o comportamento acaba assumindo esse papel.
Na prática clínica, é comum observar situações como:
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Crianças que compreendem pouco do que é falado;
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Crianças que entendem, mas não conseguem se expressar de forma eficiente;
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Crianças que se expressam, mas não são compreendidas pelos adultos.
Essas vivências geram frustração, ansiedade e a sensação constante de não ser compreendida. Como consequência, podem surgir comportamentos como:
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Birras frequentes;
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Choro intenso sem causa aparente;
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Agressividade;
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Isolamento;
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Recusa em participar de atividades;
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Dificuldade para seguir regras.
Ou seja, muitas vezes, aquilo que chamamos de “comportamento inadequado” é, na verdade, uma tentativa de comunicação.
Quando o comportamento é um pedido de ajuda
Imagine uma criança que quer água, mas não consegue pedir.
Ou que não entende por que a atividade mudou de repente.
Ou que sente dor, medo ou desconforto, mas não sabe nomear o que está sentindo.
Sem recursos comunicativos, o comportamento passa a ser o único caminho possível.
Por isso, antes de rotular um comportamento como inadequado, é fundamental se perguntar:
👉 Essa criança consegue se comunicar de forma funcional?
A importância da comunicação funcional
Chamamos de comunicação funcional aquela que permite que a criança:
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Peça o que precisa;
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Faça escolhas;
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Diga “não”;
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Demonstre preferências;
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Expresse sentimentos;
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Interaja com o outro de forma intencional.
Quando essas habilidades são desenvolvidas, observamos ganhos importantes, como:
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Redução significativa das birras;
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Maior autonomia;
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Melhor adaptação às rotinas;
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Relações mais positivas com adultos e outras crianças.
Ou seja, ao fortalecer a comunicação, também fortalecemos o comportamento e o desenvolvimento emocional da criança.
O papel da fonoaudiologia
A fonoaudiologia atua diretamente no desenvolvimento das habilidades comunicativas, sempre respeitando o perfil, o ritmo e as necessidades individuais de cada criança.
O trabalho fonoaudiológico pode envolver:
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Estimulação da linguagem oral;
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Ampliação do vocabulário;
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Desenvolvimento da compreensão da linguagem;
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Organização da comunicação;
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Uso da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), quando necessário;
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Orientação à família e à escola.
É importante destacar que melhorar a comunicação não significa apenas fazer a criança falar, mas oferecer caminhos para que ela consiga se expressar de forma eficiente — seja por meio da fala, de gestos, imagens ou outros recursos.
Conclusão
O comportamento infantil, muitas vezes, comunica aquilo que a criança ainda não consegue dizer com palavras.
Ao investir no desenvolvimento da comunicação, estamos oferecendo à criança voz, autonomia e segurança emocional.
Mais do que corrigir comportamentos, é preciso aprender a escutar o que eles estão tentando dizer.
Referências bibliográficas
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ASHA – American Speech-Language-Hearing Association. Communication and behavior in children. Disponível em: https://www.asha.org
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BRUNER, Jerome. Child’s talk: learning to use language. Oxford: Oxford University Press, 1983.
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CAPOVILLA, Fernando César; SILVA, Alessandra Marques da. Comunicação alternativa e ampliada. São Paulo: Memnon, 2011.
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SKINNER, Burrhus Frederic. Verbal behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 1957.


